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Contos

Desenho de um gato cinza deitado em uma superfície _ Vetor Premium.jpeg
Filosofia do Gato da Oficina

Autor: Eduarda Feijóo

Interessante é ser
Eu ainda me lembrar de você
Quantos anos se passaram?
Um ou dois?
A ideia de te perder
Ainda me assombra, mesmo sem eu perceber

Eu tinha um vazio tão grande em meu peito, sabe? dava passos e caminhos gravados e acostumados e mirava o chão como se tudo de interessante permanecesse ali. Não havia nada a ver, até porque, tudo que eu mais queria era me esconder. Tão engraçado - mesmo que não me faça rir - como minha mente podia, por segundos, desaparecer. Palavras que voavam e não iam embora nunca e repetiam e repetiam e repetiam e jamais calavam a boca. Vivia perdida, sabe, sem saber aonde pertencer. Caía e caía e caia e nunca achava a saída da curiosidade de ser Alice, entorpecida por fantasias. Recordo-me do exausto caminho que fazia, a dor nas costas permanecia - um peso que não sabia de onde vinha, da minha mochila ou da minha melancolia? - o chão era sujo, imundo, na verdade. Estava sempre preocupada em desviar da realidade. O caminho em si, não me recordo bem, mas sabia que subia e descia. Era tão habitual que sequer me importava - também, eu vivia atrasada. Meus olhos não tinham brilhos e nem a ânsia de apreciar o mundo. Apenas atentos a desviar do que atrapalharia estar em minha mente, lá no fundo.

Apesar do caminho esquecido, lembro-me exatamente onde te vi,  perto do destino, ao lado, quieto, cansado, observador. Tu eras o único no meio do mundo de caminhos acostumados que eu reparava, com cautela, com carinho, com timidez. Desde então, dispensava o mundo de fantasias apenas para te olhar admirar - seja lá o que for. Entre manhãs e manhãs, eu te via. Talvez fosse a melhor parte do meu dia. Era o único momento em que as vozes paravam e viam-te sentado, cansado e encolhido. Tuas pelagens pretas te enfeitavam. Teus olhos, já tão familiarizados, piscavam lentamente. Espreguiçava-se do seu jeito e vinha andando perto das grades em meio aos carros. Não eras de rua, disso me lembro bem. Estava sempre aconchegado dentro da oficina, vendo tudo passar diante dos felinos olhos. Gostava de ver você, sabe. Não sei quanto tempo durou. Apenas sei que, num dia onde decidia se ainda valia a pena acordar, vieram novamente para me atormentar. E daí surgiu o infeliz pensamento: "tu me vês?"

Talvez fosse triste, sabe, algo que me fez feliz por tanto tempo, ser capaz de me sentir menos que uma migalha voando ao vento. Algo que nunca lhe contei - ainda mais triste que tu nunca saberás - e eu te via, todo dia, talvez você me reconhecesse. Ou talvez não. Nunca irei descobrir. A consciência me acertou, e a realidade me espancou. Eu não era a única a andar por onde tu andavas, sabe. Havia tantos outros, talvez alguns que você sabia que existia. Muitos e muitos iam e vinham e saíam e nem sei se te viam. Eu te via. Quero que saibas mesmo quando nunca vier a escutar minhas palavras. Palavras humanas, rima, escrita, poesia. Talvez nem saiba que isso existia. Tua língua se resumia a miar. Nunca te vi miar, mas reconheço: se eu viesse a escutar um dia, a consciência bateria, nunca seria capaz de te compreender. Por tamanha sabedoria?  Ora, já que vês tanto, deves ter visto tantas coisas que o comum já não te impressiona. Não é como nós, tolos. Ingênuo é estar aqui, escrevendo para um gato que morava na oficina e não fazia nada além de observar. Será que sabes o que é isso? Não necessitas de arte, sabe, talvez não haja em você o que há em mim quando ponho-me a escrever. O que são os rostos para você? Tu os grava, os guarda? Ou, assim como penso, sequer os olhava?

Será que somente saber da tua existência bastava? Já disse e nunca me ouvirás: eu te vejo, eu te reconheço, eu me lembro. E quanto a mim? Bastará apenas o meu sentimento no mundo ecoar? Podes afirmar para mim - mesmo que impossível - que tu me vias, tu me reconhecias e tu se lembras? Suplicar não adianta, veja só a nossa distância. Tu não estás tão longe assim, mas tua ausência me faz ter falta de mim. De algo que nunca tive e desejo: ser vista, lembrada e amada sem medo. Estou inflada de amores que nunca contei seus verdadeiros valores. Tenho medo, sabe. De contar o quanto tu és importante. Porque se, sem mais nem menos, da noite para o dia, tu desaparecer, sumir e me esquecer - se é que tu se lembras de mim, mesmo que às vezes - terei consciência de que acabei de te perder. Não que eu esteja forçando-te a recordar, porque assim fica chato gostar - tem de ser o mais sinceros, os gritantes, os suplicantes, os memoráveis, os amáveis momentos em que, repentinamente, surgi em sua mente. Não se implora para amar - mesmo que a alma encolha e enlouqueça e entorpeça e suplique por elogios, sorrisos, risadas, abraços, beijos e toque. Ainda assim, não deixo de pensar, em como eu seria, se tu algum dia me recordar.

O que será de mim agora, que mesmo depois de tempos e tempos e virada de horas, tu ainda vem me assombrar? Não consigo te esquecer, sabe. Tu és um gato fácil de lembrar. Mesmo que simples, mesmo que eu já tivesse visto outros gatos como você. Tu tens algo de diferente - apesar do teu jeito comum de gato - talvez seja porque, mesmo a respirar, tu me fez questionar, pensar e, ao final, recordar. Não ache que sua memória é tatuada em meu cérebro porque eras gato, mas porque estava sempre lá, a observar. Ainda que me reste a necessidade de, por você, ser lembrada, saiba que jamais te culparei por ter feito me sentido assim: como se eu não fosse, sabe. Um nada.

Livro 1

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